Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Liane Alves
Para Portal Revista Bons Fluídos - Disponível em: http://bonsfluidos.abril.com.br/
Em 1993, a australiana Caroline Ward era uma consultora de empresas iniciando uma carreira que se anun ciava brilhante. Foi nesse ano que ela conheceu seu grande amor, Michael. Eles ficaram apenas dez meses juntos: Mike teve câncer terminal e, depois de apenas cinco meses de casado, morreu. Durante esse curto período, porém, Caroline viveu intensamente e reinventou sua vida. Para auxiliar na recuperação do marido, começou a se alimentar melhor, dormir cedo, reduziu o ritmo de trabalho e adotou a meditação diariamente, prática que aprendeu num dos centros da Organização Brahma Kumaris da Austrália. Foi lá que ela entrou em contato com seu lado feminino mais essencial. “Nunca tinha pensado em mim como mulher. Não percebia as condições, características e circunstâncias especiais que envolvem um ser do sexo feminino”, admite Caroline.
A Brahma Kumaris (que significa filhas de Brahma) nasceu na Índia no começo do século passado. Foi criada para dar à população feminina acesso à educação e ao conhecimento, que, na época, era negado a elas. Hoje, a organização é dirigida por um grupo de mulheres sábias de 70 a 90 anos.
Pouco depois da morte do marido, a consultora passou a liderar programas direcionados às mulheres, usando sua inteligência e poder de percepção para mostrar como é importante identificar as muitas faces do feminino. “Esse reconhecimento ajuda a desvendar o que nos aprisiona e mostra como mudar essa situação. Ao entrar em contato com seu ser essencial, a vida se torna mais criativa, aberta, livre, verdadeira e amorosa.” Em seu livro As Quatro Faces da Mulher (Integrare) e no site www.fourfacesofwoman.org (em inglês), Caroline Ward mostra como uma mulher pode se conhecer e se reconhecer nos diferentes aspectos relacionados ao feminino, sintetizados em quatro faces distintas. Todas nós temos, em maior ou menor grau, um pouco de cada uma delas.
Na organização Brahma Kumaris, guiada pela sabedoria das anciãs, mulheres com a vivência de mais de 70 anos, percebe-se a incrível riqueza do feminino e os problemas específicos desse universo.
FACE ETERNA O QUE EU REALMENTE SOU
É a nossa essência, pura, livre, amorosa, poderosa e não condicionada ao que o outro deseja de nós. A Face Eterna permanece como um pano de fundo à nossa personalidade. Está presente quando provamos o gosto da liberdade, da criatividade, do amor, da generosidade. Nunca vai ser alterada pelas circunstâncias. É o que somos num nível mais profundo.
Sua principal característica é que oferece um enorme poder de transformação. Caroline Ward lembra como os bebês carregam esse poder alquímico de modificar até o mais sisudo dos adultos, libertando-os da pesada carga acumulada durante a vida e devolvendo a eles uma inocência esquecida. “Eles ainda estão em contato com essa fonte eterna de beleza, frescor, criatividade e pureza”, diz. Inventam brincadeiras, adoram ser acariciados e não têm defesas estruturadas. A Face Eterna também faz qualquer uma de nós se sentir livre, criativa, segura, poderosa, aberta e feliz. E assim somos capazes de viver intensamente o presente sem nos perder em pensamentos do passado ou do futuro.
“Costumamos ter vislumbres dessa face que duram apenas alguns minutos. Ou mesmo dias, se não estivermos tão absortas nas atividades do cotidiano. Ela está presente quando entramos em contato com nosso Eu profundo”, explica Carolina. A Face Eterna nos leva ao estado do Eu ou completa, plena, satisfeita, feliz, livre de dúvidas, confusão, dualidade, questionamentos e acon tece quando conseguimos saborear um momento com grande intensidade. Para acessá-la, temos de identificar em que circunstâncias nos encontrávamos quando sentimos essa felicidade transbordante e, a partir daí, aprender como viver essa face com mais frequência. No livro, Caroline ensina exercícios e meditações para tornála mais presente em nossas vidas.
Vivemos sob padrões massificados — temos de ser belas, incansáveis, inteligentes, múltiplas. Gastam-se tempo e energia para manter esses ditames da Face Tradicional e fica difícil entrar em contato com nossa essência.
FACE TRADICIONAL EU SOU QUEM VOCÊ DIZ QUE EU SOU
Essa é uma face totalmente reativa e condicionada à realidade externa. Quando nascemos, a vida já está estruturada em culturas que atribuem diferentes papéis, condições e status à mulher. Desde pequenas, somos estimuladas a aceitar esses papéis sem questioná- los. Assim, colocamos nossa felicidade nas mãos do outro e nos conformamos em ser o que a família e a sociedade desejam. Manter a Face Tradicional consome muita energia e rouba nossa vontade de entrar em contato com a Face Eterna, nossa essência.
A Face Tradicional nos impele para tarefas, deveres e metas. Se não obedecemos a seu comando, somos punidas com um sentimento de impotência e tristeza. Por outro lado, quando cumprimos o que nos é pedido por ela, essa face nos dá a sensação de sermos amadas e aceitas. Também é ela que estimula o prazer e a alegria de ter, sejam coisas materiais ou mesmo relacionamentos – a felicidade tornase inteiramente condicionada ao que possuímos. Segundo Caroline, a Face Tradicional não é nociva – ela causa infelicidade apenas quando desconectada do nosso verdadeiro Eu, ou seja, quando esquecemos que existe uma realidade interna que não depende de nada material para ser feliz.
“Não há nada errado em desempenhar papéis ou ter posses, ou cuidar do seu corpo, ou ganhar dinheiro. Apenas quando perdemos o senso do Eu verdadeiro nessas coisas externas à nossa natureza é que nos tornamos vulneráveis.” Caroline afirma que merecemos mais do que isso. Ela aconselha a examinar o quanto somos dependentes desses valores e papéis, o quanto nossa vida está condicionada ao que deseja o companheiro, a família, a sociedade, o quanto estamos à mercê do outro. Ela nos instiga também a pensar no quanto sabemos expressar do nosso verdadeiro Eu nas nossas relações pessoais, profissionais e comunitárias.
Para se desvencilhar da dor que a perda de nossa essência provoca, vale adotar a Face Moderna. O risco é que ela nos induz a radicalizar, em vez de identificar o que queremos.
FACE MODERNA EU NÃO SOU QUEM VOCÊ DIZ QUE EU SOU
Quando alguém percebe o efeito nefasto da Face Tradicional, pode se socorrer ativando os poderes da Face Moderna. Ela nos ajuda a lutar contra limites e imposições e buscar liberdade, verdade, criatividade e individualidade. No entanto, é preciso cuidado porque para se desvencilhar da Face Tradicional a Face Moderna pode assumir uma atitude radicalmente oposta: “Nessa luta, a mulher mobiliza uma grande energia para escapar dos vínculos e padrões indesejados, mas não acessa o mais profundo do seu ser, que é onde ela poderia encontrar o equilíbrio de que realmente precisa”, explica Caroline. A Face Moderna é importante pela coragem e determinação que nos infunde, mas é incapaz de propor um novo caminho que nos leve à felicidade.
Quando rejeitamos os padrões impostos pelo outro, seja o namorado, o marido, o chefe ou as instituições, uma voz se levanta – e é uma voz furiosa, cheia de revolta. “Simplesmente reagir às imposições da cultura é um sinal de que ainda não encontramos o caminho verdadeiro, que é em direção a nós mesmas, e não uma luta contra o que vem de fora”, diz.
Não é fácil abandonar essa batalha contra o que nos oprime no mundo externo, pois lutar nos dá a sensação de estarmos vivas e participantes. É a quarta face que ajuda a reencontrar o verdadeiro caminho e nos propicia um contato mais duradouro e frequente com a Face Eterna. Assim, a coragem e a liberdade despertadas pela Face Moderna serão usadas na direção certa, na direção do seu Eu.
FACE SHAKTI EU ACESSO O PODER PARA SER QUEM EU SOU
Nas antigas tradições matriarcais, a força feminina é considerada sagrada, uma manifestação do lado feminino de Deus. Na Índia, essa energia divina é chamada de Shakti e está presente nas divindades femininas e também habita homens e mulheres.
“Quando uso essa face, recebo inspiração para minha verdade e destino, e força para retornar à morada do Eu”, ensina Caroline. Ela nos faz entender o que tem sentido em nossa vida e como podemos contribuir, não a harmonia de todos os seres. Aprendemos a escutar a voz da intuição.
A Face Shakti também revela em que condições podemos nos sentir plenas. E mostra como desperdiçamos energia em coisas que não trazem nenhuma felicidade. O despertar de Shakti leva ao fortalecimento interior, a um despertar para a nossa realidade. Essa força divina, segundo Caroline Ward, está ancorada em oito poderes distintos, que podem ser acionados com exercícios e meditações. Suas principais qualidades são:
O PODER DO AFASTAMENTO:
possibilita o distanciamento da situação emocional em que estamos e deixa ver a realidade de uma perspectiva objetiva.
O PODER DA COOPERAÇÃO:
faz com que usemos nossa força em benefício do outro e nos recompensa com uma energia nova e potente.
O PODER DA LIBERTAÇÃO:
traz força para cortarmos as correntes que nos aprisionam internamente.
O PODER DO ENFRENTAMENTO:
fornece energia para lidarmos com os sentimentos do nosso mundo interior.
O PODER DA TOLERÂNCIA:
mostra como ir além de reações imediatas e intempestivas – é o caminho da sabedoria.
O PODER DA DECISÃO:
dá vigor para nos comprometermos com os objetivos importantes.
O PODER DA ACEITAÇÃ0:
ensina como deixar para trás o que deveria ser para trabalhar com o que de fato é.
O PODER DO DISCERNIMENTO:
permite ver a verdade exatamente como ela é.
A Face Shakti ensina a escutar a voz da intuição, aquela que sabe nos dizer qual o caminho a seguir. Ela torna-se nossa bússola e ativa a memória do que nos faz felizes.
Fonte da imagem: pt.dreamstime.com